Garotinho preso: Entenda as acusações contra ex-governador do Rio

Garotinho atua como secretário de Governo na administração de sua mulher, Rosinha Garotinho, em Campos dos Goytacazes, interior do Estado.
A PF de Campos acusa o ex-governador de liderar um esquema que teria usado um programa social do município para comprar votos nas eleições municipais de outubro deste ano. Em resposta, a defesa dele afirma que o programa nunca foi usado para fins eleitorais.
"Nossa apuração indica que ele lidera uma organização criminosa, como disse o delegado", afirmou à BBC Brasil o agente especial Alessandro Rodrigues, da PF local.
Segundo a Polícia Federal, a transferência de Garotinho para a sede da corporação em Campos deve acontecer até o fim dessa tarde. Os advogados, por sua vez, informam que preparam desde a manhã desta quarta-feira um pedido de habeas corpus para o ex-governador, que deve ser finalizado nesta tarde.
"A prisão é no mínimo desnecessária, porque a eleição já acabou", diz o advogado Lopes Neto. "Não faz sentido prender uma pessoa para evitar práticas de crime eleitoral se a eleição já acabou. Lembrando que o candidato apoiado pelo grupo dele (Garotinho) foi derrotado."
Em entrevista à BBC Brasil publicada no último dia 3, o ex-governador comentou a derrota. "O resultado da eleição não foi o que de fato aconteceu. Ali tem fraude e a coisa não é pequena. Mais do que isso eu não posso falar", disse, sem dar mais detalhes.
Na ocasião, o político disse que foi "vítima de perseguição do Judiciário fluminense em toda a minha trajetória política", sem citar especificamente as investigações sobre compra de votos pela PF.
Garotinho foi governador do Rio de 1998 a 2002. No mesmo ano, ele concorreu à Presidência e sua mulher foi eleita governadora do Estado. Derrotado por Luis Inácio Lula da Silva, ele assumiu o cargo de Secretário de Segurança Pública do Rio.
O casal esteve envolvido em diversos escândalos de corrupção, desvio de verbas durante os mandatos no Estado e na prefeitura de Campos dos Goytacazes. 

Crescimento suspeito

A Operação Chequinho faz referência ao programa social Cheque Cidadão, que concede mensalmente um benefício de R$ 200 a famílias de baixa renda de Campos dos Goytacazes.
O Cheque Cidadão foi criado por Anthony Garotinho em 1999, durante seu governo no Estado do Rio de Janeiro. O político costuma citá-lo em entrevistas, afirmando que "criou o Cheque Cidadão antes de o governo federal criar o Bolsa Família", que tem critérios similares.
Em 2009, Rosinha Garotinho lançou a versão municipal do programa em Campos, reduto eleitoral da família.
"Nunca foi um programa casuístico, usado para eleição. Ele existe desde 1999", argumenta o advogado de defesa Lopes Neto.
A distribuição do benefício chegou a ser interrompida para recadastramento de famílias após suspeita de fraudes. Segundo a Polícia Federal, teria ficado "paralisado por anos, suspenso por falta de recursos".
O advogado de Anthony Garotinho, no entanto, afirma que só houve suspensão momentânea em 2015 para corte nos cadastrados e por causa da crise financeira.
A partir de junho de 2016, a PF diz ter observado um crescimento desordenado no programa, que passou de 12 mil beneficiários a 30 mil em dois meses.
À BBC Brasil, a Polícia Federal de Campos dos Goytacazes disse que "conseguiu 'amarrar' a extensão do programa social à venda de votos por Garotinho depois de uma série de investigações e evidências recolhidas".
"O programa havia sido suspenso em função de falta de recursos. De junho para cá, o número de beneficiados quase triplicou. O benefício social só voltou a ser concedido à população em troca de votos", disse o agende Alessandro Rodrigues. 

'Nunca foi suspenso'

O advogado de defesa de Garotinho, Jonas Lopes Neto, negou a paralisação do programa.
"Nunca ficou suspenso. De fato, com a crise econômica, o programa teve uma redução de 30 mil cadastrados para 12 mil, em 2015."
Ele afirma que o município recebeu em maio um aporte de R$ 500 milhões de reais, o que teria possibilitado a expansão do benefício.
"É uma verba decorrente de uma operação financeira junto à Caixa em Brasília. Com esse aporte o programa se restabeleceu, assim como vários outros programas. O município estava parado e, com essa verba, voltou a caminhar."
Em setembro, a Justiça chegou a suspender o benefício para os cadastrados a partir do dia 1º de junho como parte das investigações.
Desde então, a PF prendeu temporariamente a secretária municipal de Desenvolvimento Humano e Social, a coordenadora do Cheque Cidadão, cinco vereadores, eleitores ligados a um vereador suspeito de compra de votos e uma radialista da cidade. (BBC Brasil) Foto: © Inacio Teixeira/Coperphoto
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